Fazer pontes para resolver problemas

Chamo-me Filipa e a minha imersão na “Economia do impacto social” nasceu com uma causa pessoal: o nascimento do meu filho Manel, com síndrome de down, ou trissomia 21. Senti que a vida me tinha tirado o tapete. Saber que existia algo que, aparentemente, “não era perfeito” causou-me uma sensação de revolta – algo que é totalmente estranho na minha forma de ser e estar na vida.

Sou uma pessoa naturalmente positiva. Não consigo ver um problema sem pensar imediatamente na luz ao fundo do túnel. Por isso, a angústia que senti naquele momento foi o impulso para a causa que hoje me move – e que cativou também uma pequena, mas Enorme equipa, que hoje leva à frente a missão da associação VilacomVida – a + valia na diferença – à qual presido.

Sou formada em comunicação social e cultural, pós-graduei-me em gestão de marketing, e mais tarde fiz uma especialização em marketing de produtos e serviços de luxo, fruto do sector onde desenvolvi os últimos anos da minha atividade profissional. Gosto de comunicar e, através desta faculdade, fazer pontes para resolver problemas. Percebi que o meu lugar nesta missão era exatamente pôr o que sei fazer melhor ao serviço desta causa – a de dar a quem tem uma limitação cognitiva, mas compatível com a vida autónoma (como o provam tantos casos de sucesso ao nível mundial) – o seu lugar na sociedade através de uma resposta adequada a esse potencial.

Com esta experiência pessoal e com o trabalho de campo desenvolvido ao longo de dois anos junto de instituições especializadas no acompanhamento destas pessoas, bem como de análise de dados estatísticos na relativos a educação especial, percebemos quatro coisas:

i) Que a sociedade não conhece a diferença porque ela está fisicamente longe de nós e que, como tal, é fundamental comunicar de forma profissional e apelativa para a dar a conhecer;

ii) Que, se queremos resolver o problema da empregabilidade e inclusão/normalização social destas pessoas, para que sejam a solução natural para funções simples, mas necessárias em qualquer empresa, temos que criar formas de contacto e relação positiva, natural, frequente e de qualidade com a diferença;

iii) Que temos que actuar a montante nesta problemática, imediatamente antes dos jovens com este perfil deixarem a escola, para que eles não desapareçam do nosso alcance e para que o investimento na sua capacitação não seja tão exigente – como acontece quando estas pessoas ficam paradas muito tempo.

iv) Que o nosso papel na economia social é trabalharmos em rede como organização parceira destas instituições que há tantos anos trabalham em prol da autonomia, dando visibilidade aos jovens que acompanham e ao trabalho excepcional que desenvolvem – e que está, injustamente, à margem da sociedade.

Surgiu assim, depois de conhecer alguns casos de sucesso na Europa, como o Team Domenica ou Café Joyeux, a ideia de criar um conceito de restauração inclusiva ao qual denominámos “CafécomVida” – cafeterias de qualidade, bem localizadas, onde as pessoas pudessem ser servidas por uma equipa inclusiva, formada por profissionais da área da restauração e por jovens com diferença cognitiva compatível com uma vida autónoma, para que aprendessem a “saber-ser”, a “saber-estar” e a “saber-fazer”, em contexto não protegido – o mais próximo possível da realidade que encontrariam numa potencial oportunidade de contratação.

vilacomvida

O CafécomVida foi realidade como projeto-piloto ao longo de um ano e meio, na cafeteria do Museu das Comunicações, em Lisboa. Num ano de actividade, servimos cerca de 4000 clientes únicos, integrámos profissionalmente na equipa 4 jovens com perturbação do desenvolvimento intelectual, acompanhámos 6 jovens em treino de autonomia e transição da escola para a vida ativa e, através dos caterings às empresas, colocámos cerca 20 jovens em contacto com aproximadamente 2000 clientes em 15 empresas distintas.

Hoje estamos preparados para novos voos, para que, um dia, a diferença já não se veja, pois fará parte de nós. É esta a nossa Visão.

Filipa Pinto Coelho

 

3 Comments Add yours

  1. Zita Mendes diz:

    Parabéns pela iniciativa ousada, que faz a diferença. São necessários mais gestos solidários como estes para que este mundo seja mais humano.

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  2. Rute Guerreiro diz:

    Que Deus possa vir Abençoar mais e mais, e desejo-lhe o maior sucesso de sempre. Podem contar com a nossa Associação Os Sábios Têm Dom para o que precisarem, no que nos for possível.

    Liked by 1 person

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