UBUNTU: EU SOU PORQUE TU ÉS.

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Passo, com pressa, por um cartaz publicitário. Leio, a correr, a frase destacada: “É urgente abrandar”. Leio, mas não lhe dou o tempo suficiente para a apreciar, sequer perceber. E continuo, porque ao contrário do que a publicidade sugere, não há tempo a perder. Perder tempo. Estranha expressão esta, como se cada segundo que vivemos não fosse o mais importante de todos. Não antes, não o depois, mas o agora. Afinal, este preciso momento é uma dádiva, ou não lhe chamaríamos presente. Mas continuo, em passo acelerado porque o tempo urge e não posso desfocar. Tenho pressa, como sempre. Tudo é prioritário, tudo é para ontem, e a pressa há muito que deixou de ser uma fase transitória. Mas a frase do cartaz teima em não me deixar. Não me sai da cabeça. Umas voltas mais aqui, outros afazeres acolá, e chego finalmente a casa. Quero descansar, mas sou invadido por um sentimento de culpa, como se ter tempo fosse um sacrilégio. Mas a frase volta, de novo e insistentemente, como o cavalinho do carrossel infantil, que desaparece apenas pelo tempo de dar a volta, e surge de novo no meu pensamento, quase que se insinuando, e forçando-me a dar-lhe atenção. É ela que me retém, que me obriga a parar. Em boa hora. Afinal, ter tempo é condição essencial para podermos apreciar as coisas, as cores, as crianças, as flores, o céu, a vida – no fundo, mas também os outros. E um outra palavra me salta de imediato à mente: ubuntu.

Ubuntu é um conceito tradicional africano, que pode ser interpretado como uma regra não escrita de conduta, quase como um fundamento básico de vivência em comunidade, ou melhor, em comunhão, em sintonia, respeito, cumplicidade, compaixão, empatia e… partilha. Apesar de não ter tradução literal na nossa língua, esta verdadeira lição de ética social pode ser explicada pela expressão: “eu sou porque nós somos”, i.e., eu só posso estar bem, se todos à minha volta estiverem bem, ou dito de outra forma, se algum membro da comunidade tem um problema, a comunidade toda, em si, tem esse problema. É uma filosofia que descreve o ser humano como alguém que existe e “é pelos outros” e “ser pelos outros” deve ser tudo. Detenho-me uns minutos a pensar nisto e no quão interessante seria, se todos pudéssemos, por um momento, dedicar algum tempo ao próximo, voluntariando-nos para contribuir, para ajudar, para melhorar.

E enquanto me debruço sobre isto, na vertigem avassaladora do tempo, surge-me na mente uma outra frase, desta feita de uma marca de cafés que durante bastante tempo aparecia inscrita nos pacotes de açúcar e que dizia “Um dia faço…(o que quer que fosse)”. E concluía: “Hoje é o dia.” E eu provoco: Ubuntu, hoje?

Alexandre Duarte é Professor Universitário, no IADE e na Universidade Católica Portuguesa, pai de 2 filhos e board member da EDCOM – European Institute for Commmercial Communications Education.

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